Treinar em jejum é uma prática que desperta curiosidade há anos e continua sendo um dos temas mais pesquisados quando o assunto é emagrecimento. A ideia parece simples: se o organismo passou várias horas sem receber alimentos, ele teria menos carboidratos disponíveis e, consequentemente, utilizaria mais gordura como fonte de energia durante o exercício. Essa lógica fez muitas pessoas acreditarem que treinar antes do café da manhã seria uma estratégia superior para perder gordura corporal. No entanto, a ciência mostra que essa conclusão é mais complexa do que parece. Lucas Peralles, nutricionista esportivo e fundador do método LP, analisa que apenas a quantidade de gordura utilizada durante o treino é um erro, pois o emagrecimento depende do funcionamento do organismo ao longo de todo o dia, e não apenas de uma hora de atividade física.
É verdade que, durante um exercício realizado em jejum, pode haver um aumento na utilização de gordura como combustível naquele momento específico. Porém, isso não significa, necessariamente, que haverá uma perda maior de gordura corporal ao longo das semanas ou dos meses. Diversos estudos comparando indivíduos que treinam alimentados e em jejum mostram que, quando a ingestão calórica diária e o treinamento são equivalentes, os resultados de emagrecimento costumam ser muito semelhantes. Isso acontece porque o organismo regula continuamente o uso dos diferentes substratos energéticos ao longo do dia, compensando as variações que ocorrem durante o exercício.
Queimar mais gordura durante o treino não significa emagrecer mais
Essa é uma das maiores confusões quando o assunto é treino em jejum. Durante atividades de intensidade leve ou moderada realizadas após um período sem alimentação, realmente existe uma maior participação das gorduras como fonte energética. Entretanto, o que determina a redução da gordura corporal é o balanço energético acumulado ao longo do tempo e não apenas qual combustível foi utilizado durante uma sessão de exercícios.
Após o treino, o organismo continua ajustando seu metabolismo. Dependendo da alimentação realizada nas horas seguintes, da intensidade do exercício, do gasto energético diário e da rotina da pessoa, esse uso momentâneo de gordura pode ser compensado posteriormente. Lucas Peralles transmite que o foco deve estar na consistência dos hábitos e não em estratégias isoladas que prometem acelerar o emagrecimento.
O desempenho também influencia os resultados
Outro aspecto frequentemente ignorado é que a alimentação antes do exercício pode melhorar significativamente o rendimento físico, principalmente em treinos de maior intensidade, como musculação, corrida intervalada e esportes de alta performance. Quando existe disponibilidade adequada de energia, muitas pessoas conseguem treinar com maior carga, maior volume, melhor concentração e menor percepção de esforço.
Esse detalhe faz diferença porque treinos mais intensos tendem a gerar maior gasto energético, maior estímulo para preservação da massa muscular e melhores adaptações metabólicas ao longo do tempo. Em algumas situações, insistir no jejum pode reduzir o desempenho e comprometer justamente aquilo que favoreceria melhores resultados na composição corporal.
O treino em jejum não é indicado para todo mundo
Embora algumas pessoas se adaptem bem a essa estratégia, outras podem apresentar sintomas como tontura, queda de rendimento, fadiga precoce, dificuldade de concentração e até episódios de hipoglicemia, especialmente quando realizam exercícios prolongados ou muito intensos.
Além disso, indivíduos com diabetes, gestantes, pessoas em uso de determinados medicamentos ou com algumas condições clínicas específicas devem ter acompanhamento profissional antes de adotar essa prática. Isso reforça que o treino em jejum não pode ser tratado como uma recomendação universal. Na avaliação de Lucas Peralles, qualquer estratégia nutricional precisa considerar o estado de saúde, os objetivos, a rotina e a individualidade de cada paciente, evitando protocolos padronizados que ignoram essas diferenças.
E para quem deseja ganhar massa muscular?
Quando o objetivo principal é hipertrofia, o cenário muda ainda mais. O ganho de massa muscular depende de um ambiente favorável para a síntese proteica, da disponibilidade de energia e da realização de treinos de alta qualidade. Em muitos casos, realizar exercícios de força completamente em jejum pode reduzir o desempenho, limitar a intensidade do treinamento e dificultar a recuperação muscular.

Isso não significa que seja impossível ganhar músculos treinando em jejum, mas demonstra que essa estratégia nem sempre representa a melhor escolha para quem busca aumentar a massa muscular ou melhorar significativamente a composição corporal.
O que realmente faz diferença no emagrecimento?
As maiores evidências científicas apontam que fatores como alimentação equilibrada, regularidade da atividade física, qualidade do sono, manejo do estresse, ingestão adequada de proteínas e adesão ao planejamento nutricional exercem impacto muito maior sobre o emagrecimento do que a decisão de treinar alimentado ou em jejum.
Muitas pessoas procuram estratégias específicas, acreditando que elas serão responsáveis pelos resultados, quando, na prática, o que mais determina o sucesso é a capacidade de manter hábitos saudáveis durante meses e anos. Pequenas escolhas repetidas diariamente costumam produzir efeitos muito superiores a técnicas isoladas que prometem acelerar o processo.
Existe um horário ideal para treinar?
Essa também é uma dúvida frequente. Até o momento, as evidências indicam que o melhor horário para treinar é aquele que permite maior regularidade. O organismo é capaz de se adaptar a diferentes períodos do dia, desde que exista constância na prática de exercícios.
Treinar pela manhã, à tarde ou à noite pode trazer excelentes resultados. Da mesma forma, treinar alimentado ou em jejum pode funcionar para determinadas pessoas. A decisão deve considerar conforto, desempenho, rotina, objetivos e resposta individual, sempre priorizando aquilo que favorece a continuidade do programa de treinamento.
A melhor estratégia é aquela que você consegue manter
O treino em jejum não é uma solução milagrosa para emagrecer, assim como fazer uma refeição antes do exercício também não impede a perda de gordura. O que realmente determina os resultados é o conjunto de hábitos construídos ao longo do tempo. Alimentação adequada, prática regular de exercícios, recuperação muscular, qualidade do sono e acompanhamento profissional continuam sendo os pilares mais importantes para melhorar a composição corporal e a saúde metabólica.
Como elucida Lucas Peralles, a escolha entre treinar em jejum ou alimentado deve ser feita com base em evidências científicas e nas características de cada pessoa, nunca em promessas divulgadas nas redes sociais. Quando a estratégia respeita a individualidade e pode ser mantida de forma consistente, as chances de alcançar resultados duradouros são muito maiores do que apostar em soluções que parecem simples, mas raramente fazem diferença isoladamente.