Levantamento da Prefeitura mostra milhares de consultas especializadas não realizadas e revela como uma ausência pode afetar toda a fila do SUS.
Mais de 21 mil consultas especializadas deixaram de ser realizadas em Cuiabá no primeiro semestre de 2026 porque pacientes não compareceram aos atendimentos agendados. O dado divulgado pela Secretaria Municipal de Saúde chama atenção não apenas pelo volume de faltas, mas pelo efeito que elas produzem sobre quem continua esperando por uma vaga na rede pública. Entre janeiro e junho, foram registradas 21.908 ausências nos Centros de Especialidades Médicas (CEM Centro e CEM Coxipó). A Prefeitura afirma que o problema mantém vagas ociosas e compromete o fluxo da regulação municipal. Para uma capital com população estimada em 691.875 habitantes pelo IBGE em 2025, melhorar o aproveitamento das consultas disponíveis pode representar uma das formas mais imediatas de aumentar a capacidade efetiva do sistema sem depender exclusivamente da abertura de novas vagas. Fonte: Prefeitura de Cuiabá e IBGE.
Por que uma falta à consulta pode aumentar a espera de outros pacientes
Quando um paciente não comparece a uma consulta especializada previamente agendada, o prejuízo para o sistema não se limita àquela vaga perdida naquele dia. A consulta foi reservada com antecedência, profissionais foram escalados e toda uma estrutura foi organizada para receber o usuário, mas o atendimento deixa de acontecer. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, somente no CEM Centro foram ofertadas 34.694 vagas no primeiro semestre, das quais 17.033 foram efetivamente utilizadas e 9.936 acabaram perdidas por ausência, equivalente a 28,6% da capacidade da unidade no período. Os números mostram que uma parcela relevante da estrutura disponível não se transforma em atendimento efetivo por causa das faltas. Fonte: Prefeitura de Cuiabá.
O impacto também aparece na fila de regulação. Uma pessoa que aguarda por consulta com especialista pode continuar esperando enquanto uma vaga reservada anteriormente permanece inutilizada, especialmente quando o cancelamento ocorre sem antecedência suficiente para que outro paciente seja chamado. Esse efeito é ainda mais importante em especialidades que possuem demanda elevada e menor disponibilidade de profissionais. Por isso, a gestão de faltas é uma questão de eficiência da saúde pública, mas também de acesso e equidade, já que o tempo de espera pode afetar de maneira diferente quem tem condições de buscar atendimento particular e quem depende exclusivamente do SUS.
A situação não significa que todos os pacientes que faltam estejam agindo de forma irresponsável. Há situações em que a pessoa não consegue comparecer por doença, problemas familiares, dificuldades de transporte, mudança de endereço ou simplesmente porque não recebeu a informação adequadamente. Também existem casos em que a consulta deixa de ser necessária, mas o paciente não sabe como cancelar ou comunicar a desistência. Por isso, uma política eficiente precisa combinar conscientização com mecanismos simples de confirmação, cancelamento e remarcação. O objetivo não deve ser apenas cobrar o usuário, mas fazer com que uma vaga que não será utilizada possa ser rapidamente oferecida a outra pessoa.
Para Cuiabá, esse desafio ganha dimensão adicional porque a cidade concentra serviços especializados que atendem também moradores de outras localidades. A capital funciona como referência regional em diferentes áreas de saúde, aumentando a pressão sobre consultas e exames de maior complexidade. O IBGE estima que Cuiabá tenha 691.875 habitantes, enquanto Mato Grosso possui população estimada em 3,89 milhões de pessoas em 2025. Fontes: IBGE e Prefeitura de Cuiabá.
O que o cuiabano deve fazer quando não puder ir à consulta
A primeira medida para evitar que uma consulta seja perdida é comunicar antecipadamente à unidade de saúde quando o paciente souber que não poderá comparecer. O cancelamento permite que a administração tente reorganizar a agenda e, dependendo do prazo e do sistema utilizado, convoque outra pessoa que também esteja aguardando atendimento. Essa atitude é especialmente importante quando se trata de consultas com especialistas, porque a oferta costuma ser mais limitada do que na atenção básica. A vaga que não é utilizada por um paciente pode representar uma oportunidade perdida para alguém que está há semanas ou meses aguardando uma avaliação.
Também é importante que o usuário mantenha seus dados atualizados no sistema municipal de saúde. Telefone, endereço e outras informações de contato podem ser fundamentais para que a rede consiga avisar sobre mudanças de horário, confirmações ou novas oportunidades de atendimento. A Prefeitura de Cuiabá vem reforçando a importância da atualização cadastral justamente para melhorar a comunicação com os usuários e reduzir problemas relacionados ao acesso aos serviços. A recomendação é que o cidadão procure sua unidade de referência ou os canais oficiais da Secretaria Municipal de Saúde para verificar como atualizar seus dados e confirmar procedimentos específicos.
Outro ponto relevante é diferenciar a consulta especializada da porta de entrada do sistema. O usuário não deve simplesmente deixar de comparecer porque apresentou um problema de saúde diferente ou porque acredita que outro serviço seja mais adequado. Em caso de dúvida, a orientação correta depende da situação clínica e dos fluxos estabelecidos pela rede municipal. A atenção básica, as unidades de pronto atendimento e os serviços especializados têm funções diferentes, e compreender essa organização pode evitar deslocamentos desnecessários e melhorar o encaminhamento do paciente.
Para a administração municipal, o desafio é transformar o levantamento das faltas em medidas concretas. Sistemas de confirmação por telefone ou mensagem, lembretes próximos da data, mecanismos simplificados de cancelamento e convocação rápida de pacientes podem ajudar a reduzir o desperdício de vagas. O acompanhamento das faltas por especialidade também permite identificar onde o problema é maior e direcionar ações específicas. Fonte: Secretaria Municipal de Saúde de Cuiabá.
Como reduzir a fila de consultas sem criar apenas novas vagas
Os números divulgados pela Prefeitura mostram que aumentar a quantidade de consultas oferecidas não é a única maneira de ampliar o atendimento efetivo. Se parte significativa das vagas já existentes não é utilizada, uma estratégia de redução das faltas pode liberar capacidade dentro da estrutura que o município já possui. Isso não elimina a necessidade de contratar profissionais, ampliar serviços ou melhorar a infraestrutura quando houver demanda reprimida, mas pode complementar essas medidas com uma ação de gestão relativamente direta. O ganho potencial está em fazer com que uma parcela maior das vagas ofertadas se transforme efetivamente em consultas realizadas.
No CEM Centro, por exemplo, os dados do primeiro semestre mostram uma diferença expressiva entre vagas ofertadas e atendimentos efetivamente realizados. A existência de 9.936 faltas em uma única unidade evidencia que o problema precisa ser analisado em conjunto com outros fatores, como absenteísmo, tempo de espera, confirmação de agenda, facilidade de cancelamento e capacidade de convocação de pacientes substitutos. O CEM Coxipó também registrou faltas no período, reforçando que não se trata de uma situação restrita a uma única região da cidade. Fonte: Prefeitura de Cuiabá.
Para o morador, a principal consequência de uma gestão mais eficiente pode ser percebida na redução do tempo entre o encaminhamento e o atendimento. Quando uma vaga é perdida, o paciente ausente pode precisar aguardar uma nova oportunidade e outro cidadão permanece na fila, criando um efeito acumulativo. Quando o sistema consegue identificar antecipadamente que determinada consulta não será utilizada e chamar outro usuário, a mesma estrutura pode atender mais pessoas ao longo do ano. É uma questão de aproveitamento da capacidade instalada, especialmente relevante em especialidades que possuem maior demanda.
O dado das 21.908 faltas, portanto, deve ser observado como um alerta de gestão e não simplesmente como uma crítica ao comportamento dos pacientes. O SUS municipal precisa facilitar a comunicação, oferecer canais claros para cancelamento e confirmação e, ao mesmo tempo, orientar os usuários sobre o impacto de não comparecer sem aviso. A responsabilidade é compartilhada: o poder público precisa construir um sistema acessível e organizado, enquanto o cidadão deve comunicar quando não puder utilizar uma vaga previamente reservada.
Com uma população estimada em quase 692 mil habitantes, Cuiabá precisa aproveitar ao máximo os recursos disponíveis para atender uma demanda crescente e complexa. Reduzir faltas não resolve sozinho as filas por consultas e exames, mas pode liberar capacidade que já existe e melhorar o funcionamento da rede. Para quem está esperando por um especialista, a diferença entre uma vaga ocupada e uma vaga perdida pode significar semanas de espera. Por isso, transformar o combate ao absenteísmo em uma política permanente de gestão pode ter impacto direto no cotidiano de milhares de cuiabanos.
Fontes: Prefeitura de Cuiabá, Secretaria Municipal de Saúde e Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Fontes oficiais incluídas na apuração: