A presença de novas onças-pintadas sofreu um ‘boom’ de 173% após as queimadas no Pantanal em Mato Grosso. Alguns dos motivos disso, segundo um levantamento feito por guias de turismo locais, foram a estiagem prolongada, os incêndios florestais, a falta de alimento e sombra às margens dos rios e alteração na vegetação pantaneira. Não se pode dizer que houve um aumento no número de animais, mas sim na detecção na região.

O levantamento observou uma resiliência do Pantanal mato-grossense: apesar da destruição causada pelos incêndios, a fauna e flora começam a ressurgir aos poucos e a circulação desse e de outros animais está mais visível aos moradores e turistas.

Em 2020, o Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (LASA) registrou 4,350 milhões de hectares incendiados no Pantanal, ou seja, 30% do bioma.

Os incêndios também atingiram o Parque Estadual Encontro das Águas, localizado na região de Porto Jofre, na cidade de Poconé (distante 102 km de Cuiabá), e destruíram 85% do parque.

A localidade é conhecida por deter a maior densidade de onças-pintadas do mundo. Turistas do país e do exterior procuram o parque para fazer a observação de onças-pintadas durante passeios de barco.

Onças catalogadas

De acordo com Ailton Lara – guia de turismo naturalista e um dos responsáveis pelo levantamento -, o número de detecção de onças-pintadas foi obtido com ajuda de outros guias de turismo, pilotos de barcos, visitantes e Organizações sem fins lucrativos (ONGs) que participam ativamente de atividades e conhecem o Pantanal.

Igor Gaspareto

A partir de dados fotográficos, o grupo conseguiu fazer um levantamento sobre o número estimado de onças-pintadas na região.

Nos últimos 13 anos de observação, o número médio de detecção de novas onças-pintadas é de 11 ‘indivíduos novos’ por ano, ou seja, esses animais nunca foram vistos antes na localidade.

“Alguns anos observamos mais, outros percebemos menos que foram catalogadas, mas esse número de indivíduos vem aumentando a cada ano na região. Em 2020 o Pantanal sofreu um dos maiores incêndios florestais da história humana e afetou muito, a flora e a fauna”, disse Ailton.

Apesar do rastro de destruição e mortes de animais, o levantamento mostrou que a taxa de detecção de novas onças-pintadas aumentou 173% na região.

Ainda não se sabe o que causou esse aumento na detecção, principalmente ao longo de rios, mas o grupo acredita nos seguintes fatores:

  • Estiagem prolongada;
  • Incêndios florestais;
  • Falta de alimento às margens de rios;
  • Falta de sombra disponível em áreas arbustivas;
  • Alteração da vegetação;
  • As onças foram para as matas ciliares, que foram menos afetadas pelo fogo e, por estar na beira do rio, ficaram mais visíveis para quem está navegado nos rios da região.

Levantamento

Entre 2007 a 2009, a taxa de detecção de novos indivíduos tinha uma média de 11 onças-pintadas por ano. Foram 144 onças fotografadas ao longo desses anos.

Em 2020, após as queimadas, houve a detecção de 75 indivíduos, sendo que 30 deles eram onças novas entre jovens e adultos. No total, no ano passado, foram catalogadas 89 onças-pintadas.

Para o biólogo Gustavo Figueirôa, especialista em manejo e conservação na fauna silvestre, profissional com experiência em monitoramento de onças-pintadas, o ‘boom’ de onças-pintadas não era o esperado depois do cenário devastador as queimadas.

“Não tem um estudo para comprovar essas hipóteses, mas, graças ao fogo, a falta de alimento e estiagem, diminuíram os recursos no interior do parque isso pode ser o motivo dessas onças irem procurarem onde os animais se concentram, como jacarés e capivaras, que são seus alimentos”, comentou ao G1.

Segundo ele, não são, necessariamente, onças-pintadas que chegaram até o parque de outras regiões, mas sim, animais que viviam mais dentro da região e que se deslocaram por ele.

“As onças são animais ágeis que conseguem pular, nadar, escalar árvores e correr e, mesmo assim, foram prejudicadas pelos incêndios. Muitos dos animais que morreram faziam parte da cadeia alimentar e do cardápio das onças. Então, a disponibilidade de alimentos diminuiu durante e após os incêndios. Esse aumento pode ser explicado pela alteração na paisagem e diminuição de recursos nas áreas mais internas do parque”, completou.

Na visão do biólogo, ainda não há como dizer se esse ‘boom’ é bom ou ruim para o Pantanal.

“Na minha visão, isso é ruim: no cenário geral queimou boa parte do parque, ainda tem pouca disponibilidade de alimento. É ruim as onças terem que sair do seu habitat para procurar alimento. Mas, ao mesmo tempo, é bom que ver que tem muitas onças que sobreviveram aos incêndios e acharem outros recursos”, finalizou.