De acordo com a análise de Márcio André Savi, o principal obstáculo para transformar os resíduos em energia nos municípios brasileiros não se deve, com frequência, à falta de tecnologia. Biodigestores, sistemas de captação de gás em aterros e unidades de purificação de biometano já operam em diferentes regiões do país, mas a maioria das cidades ainda não conseguiu avançar da fase de intenção para a de projeto.
A discrepância entre o potencial e a prática é digna de nota. Isso porque os resíduos sólidos urbanos concentram uma parcela significativa de matéria orgânica, justamente a fração que gera biogás ao se decompor. Esse gás, rico em metano, pode ser utilizado para alimentar motores que produzem eletricidade ou ser purificado até adquirir características semelhantes às do gás natural, resultando no biometano.
Para compreender por que esse aproveitamento ainda é limitado, é preciso identificar um conjunto de barreiras que envolvem escala, financiamento, contratos, regulação e qualidade do resíduo recebido. Cada uma delas afeta a viabilidade de forma distinta, e a combinação entre elas explica parcela significativa da hesitação dos gestores públicos.
Como o lixo se transforma em eletricidade e biometano?
O método mais comum é captar o biogás de aterros sanitários. O gás é levado a uma central, onde é queimado para produzir eletricidade ou tratado para remover gás carbônico, umidade e compostos de enxofre, etapa que permite obter biometano.
A biodigestão anaeróbia da fração orgânica separada, como restos de alimentos e resíduos de feiras, é a segunda rota. Nesse caso, o material é processado em reatores fechados, com maior controle sobre a produção de gás. O digestato pode ser usado como fertilizante quando atende aos critérios de qualidade.
Cabe ressaltar que as duas rotas apresentam exigências bastante distintas, conforme explicado por Márcio André Savi. O biogás de aterro utiliza uma estrutura existente, porém sua produção depende da qualidade da operação do aterro e do tempo de decomposição dos resíduos. Em contrapartida, a biodigestão oferece um rendimento mais previsível, embora exija uma separação eficiente da fração orgânica desde a origem.
A mudança na escolha do produto final muda o projeto. A eletricidade pode ser gerada e usada localmente ou injetada na rede. O biometano pode ser utilizado para abastecer frotas, indústrias ou ser injetado em gasodutos, o que exige conformidade com as especificações técnicas.

As barreiras que travam os projetos nos municípios
Os entraves mais citados por gestores e técnicos do setor não aparecem isoladamente. Eles se somam e, em muitos casos, um problema agrava o outro, tornando o projeto inviável mesmo quando a tecnologia está disponível:
- Escala insuficiente: municípios de pequeno porte geram pouco resíduo orgânico para sustentar uma planta, o que eleva o custo por tonelada processada e afasta investidores.
- Contratos curtos ou instáveis: projetos de energia têm retorno de longo prazo e dependem de garantia de fornecimento de resíduos e de receita por vários anos, algo difícil de assegurar quando as concessões são frágeis.
- Baixa qualidade da separação: a mistura de orgânicos com plásticos, vidros e rejeitos reduz o rendimento da biodigestão e aumenta o desgaste dos equipamentos.
- Custo de purificação e conexão: transformar biogás em biometano exige sistemas de tratamento e, muitas vezes, investimento em gasodutos ou estruturas de compressão para levar o combustível ao consumidor.
- Capacidade técnica limitada: muitas prefeituras não contam com equipes preparadas para estruturar projetos, conduzir licenciamento e fiscalizar contratos complexos.
Na perspectiva de Márcio André Savi, a escala representa o principal fator condicionante das demais barreiras. Em projetos com baixo volume de resíduos, os custos de purificação, conexão com a rede e contratação de equipe especializada tendem a ser mais significativos, impactando a viabilidade do empreendimento.
A ausência de dados compromete o planejamento, como destaca Márcio André Savi. A ausência de uma caracterização detalhada dos resíduos, que identifica a proporção de cada material gerado, impede que o município estime com segurança o potencial de produção de gás. Projeções otimistas podem resultar em plantas superdimensionadas e operando abaixo da capacidade.
Caminhos para destravar o aproveitamento energético
Os consórcios intermunicipais são uma solução para o problema da escala, pois reúnem resíduos de várias cidades em uma só unidade, diluindo custos e tornando mais viável a contratação de operadores especializados, com logística de transporte bem planejada.
A organização da coleta da fração orgânica é outra condição, já que programas de separação em grandes geradores, como restaurantes, mercados, centros de abastecimento e feiras livres, costumam oferecer material mais homogêneo e em volume concentrado, facilitando os projetos de biodigestão antes da expansão para os resíduos domiciliares.
O engenheiro Márcio André Savi salienta a importância do uso local do biometano. A frota própria de coleta ou veículos públicos abastecidos pela própria municipalidade reduz dependência de gasodutos, encurta a cadeia e cria demanda estável.
A segurança contratual é essencial para que investidores e operadores assumam projetos de maior porte. Com concessões de longo prazo, regras claras de remuneração e garantia de entrega de resíduos, o risco percebido é reduzido, pois os projetos se pagam em anos.
Energia como resultado de uma gestão bem estruturada
Em suma, o aproveitamento energético do lixo depende menos de uma tecnologia específica e mais da organização que existe antes dela. Para que o potencial teórico se traduza em operação contínua, é necessário que haja escala adequada, separação de qualidade, contratos estáveis e destino definido para a energia produzida.
Ao analisar esse conjunto de fatores, o especialista Márcio André Savi aponta que o município que deseja produzir eletricidade ou biometano a partir de resíduos precisa começar pelo diagnóstico e pelo planejamento regional. Nesse contexto, a energia emerge como um resultado de um sistema de gestão de resíduos bem estruturado, e não como uma solução isolada para problemas que se acumulam desde a coleta.