Taiza Tosatt Eleoterio, especialista em saúde mental e relações familiares, esclarece que a regressão comportamental é uma das respostas mais comuns de crianças que crescem em ambientes de violência doméstica e se manifesta no retorno a comportamentos de fases anteriores. Voltar a fazer xixi na cama, pedir colo com mais frequência ou ter dificuldade para dormir sozinha são exemplos disso, mesmo depois de a criança já ter superado essas etapas. Esses sinais não indicam mau comportamento, mas uma forma de expressar insegurança e sofrimento. Por esse motivo, entender esse retorno como linguagem emocional muda a resposta dos adultos e ajuda a criança a se sentir segura para voltar a crescer no próprio ritmo.
O que é a regressão comportamental?
Em termos simples, a regressão acontece quando a criança retoma, de forma inconsciente, padrões de comportamento próprios de uma fase anterior do próprio desenvolvimento, geralmente como uma forma de buscar segurança em um momento de instabilidade emocional. Diferente do que muitos adultos imaginam, não se trata de birra, manha ou falta de disciplina, mas sim de uma resposta emocional legítima a um ambiente percebido como ameaçador.
Segundo Taiza Tosatt Eleoterio, esse tipo de resposta é especialmente comum em crianças pequenas, que ainda não desenvolveram recursos emocionais suficientes para lidar com situações de tensão constante dentro de casa, e que recorrem a comportamentos antigos justamente porque, em algum momento, esses comportamentos trouxeram segurança e atenção.
Por que o corpo infantil busca o conhecido em momentos de insegurança?
Nesse sentido, o retorno a fases anteriores funciona como uma espécie de refúgio emocional: ao reproduzir comportamentos de quando era menor, a criança busca, de forma simbólica, reviver momentos em que se sentia mais protegida e cuidada por quem estava ao seu redor. Esse mecanismo tende a se intensificar durante ou imediatamente após períodos de maior conflito dentro de casa.
Taiza Tosatt Eleoterio pontua que esse comportamento não deve ser interpretado como um retrocesso definitivo no desenvolvimento da criança, mas sim como um sinal temporário de que ela está processando, da melhor forma que consegue, uma experiência emocional difícil demais para ser elaborada de outra maneira.
Sinais comuns de regressão em diferentes idades
Alguns sinais costumam aparecer com mais frequência, variando conforme a faixa etária da criança:
- Retorno a hábitos como chupar o dedo ou usar chupeta, mesmo depois de tê-los abandonado;
- Dificuldade renovada para dormir sozinha, com pedidos frequentes para dormir com um adulto;
- Episódios de enurese noturna (urinar na cama) após um período de controle já estabelecido;
- Fala infantilizada ou retorno a um vocabulário mais simples do que o já desenvolvido;
- Maior dependência física do cuidador, com pedidos constantes de colo ou proximidade.
Cabe destacar que esses sinais, isoladamente, não indicam necessariamente um trauma grave, mas merecem atenção quando aparecem de forma persistente ou logo após episódios de tensão familiar. Observar o conjunto desses sinais ao longo do tempo, em vez de reagir a um episódio isolado, costuma oferecer uma leitura mais precisa sobre o que a criança está, de fato, vivenciando internamente.
Como diferenciar regressão pontual de um padrão persistente?
É natural que crianças apresentem episódios pontuais de regressão diante de qualquer mudança significativa na rotina, como uma viagem, o nascimento de um irmão ou o início em uma nova escola. O que diferencia esses episódios comuns de uma regressão associada a um ambiente violento é a persistência do comportamento e sua relação direta com momentos de maior tensão dentro de casa.
Taiza Tosatt Eleoterio ressalta que observar se esses sinais se intensificam após discussões, gritos ou episódios de violência entre os adultos da casa ajuda a identificar com mais clareza se existe uma conexão emocional entre o comportamento da criança e o ambiente familiar vivido no momento.
O papel do acolhimento, sem punição, nesse processo
Taiza Tosatt Eleoterio orienta que a resposta mais adequada diante da regressão não é a punição ou a cobrança para que a criança “se comporte de acordo com a idade”, mas sim o acolhimento paciente desses comportamentos como parte do processo emocional em curso. Repreender a criança por voltar a pedir colo ou por apresentar dificuldades que já pareciam superadas tende a intensificar a insegurança, em vez de reduzi-la.
Com o tempo, à medida que o ambiente se torna mais estável e previsível, esses comportamentos regressivos tendem a diminuir naturalmente, sem a necessidade de intervenções drásticas, desde que a criança sinta que pode contar com o apoio emocional dos adultos responsáveis por ela.
Quando buscar acompanhamento profissional?
Quando os sinais de regressão persistem por muitas semanas, se intensificam significativamente ou passam a comprometer a rotina escolar e social da criança de forma importante, buscar acompanhamento psicológico especializado costuma ser recomendado. Esse apoio profissional ajuda a criança a elaborar, em um espaço seguro, aquilo que ainda não consegue expressar com palavras no dia a dia.
Taiza Tosatt Eleoterio reforça que, independentemente da necessidade de acompanhamento especializado, o papel do adulto em oferecer presença constante, paciência e previsibilidade continua sendo a base mais importante para que a criança retome, no seu próprio tempo, a confiança no ambiente em que vive.